Hot! Sobre a eucaristia (João Paulo II)

Cartas de Sua Santidade João Paulo II
sobre a Eucaristia

CARTA DO SANTO PADRE
JOÃO PAULO II
AOS SACERDOTES
POR OCASIÃO DA
QUINTA-FEIRA SANTA DE 2005

 

Queridos sacerdotes!

1. Neste Ano da Eucaristia, sinto uma particular alegria em encontrar-me espiritualmente convosco, como sucede anualmente, por ocasião da Quinta-feira Santa, o dia do amor de Cristo levado « até ao extremo » (cf. Jo 13, 1), o dia da Eucaristia, o dia do nosso sacerdócio.

Dirijo-me a vós, sacerdotes, durante um período de tratamento e recuperação que tive de passar no hospital, doente entre os doentes, unindo, na Eucaristia, o meu sofrimento ao de Cristo. Neste espírito, quero reflectir convosco sobre alguns aspectos da nossa espiritualidade sacerdotal.

Irei fazê-lo, deixando-me guiar pelas palavras da instituição da Eucaristia, as mesmas que diariamente pronunciamos, in persona Christi, para tornar presente sobre os nossos altares o sacrifício realizado uma vez por todas no Calvário; é que de tais palavras brotam indicações de espiritualidade sacerdotal muito elucidativas: se toda a Igreja vive da Eucaristia, a existência sacerdotal deve a título especial tomar « forma eucarística ». Por isso, as palavras da instituição devem ser, para nós, não apenas uma fórmula de consagração, mas uma « fórmula de vida ».

Uma existência profundamente « agradecida »

2. « Tibi gratias agens benedixit… ». Em cada Missa, recordamos e revivemos o primeiro sentimento expresso por Jesus quando partiu o pão: o sentimento de acção de graças. O agradecimento é a atitude que está na base do próprio termo « Eucaristia ». Dentro deste gesto de gratidão, vem confluir toda a espiritualidade bíblica do louvor pelas mirabilia Dei. Deus ama-nos, precede-nos com a sua Providência, acompanha-nos com intervenções contínuas de salvação.

Na Eucaristia, Jesus agradece ao Pai connosco e por nós. Como poderia esta acção de graças de Jesus deixar de plasmar a vida do sacerdote? Este sabe que deve cultivar um espírito constantemente agradecido pelos numerosos dons recebidos ao longo da sua existência, particularmente pelo dom da fé, da qual se tornou arauto, e pelo dom do sacerdócio, que o consagra inteiramente ao serviço do Reino de Deus. Temos as nossas cruzes — e não somos certamente os únicos a havê-las! — mas os dons recebidos são tão grandes que não podemos deixar de cantar, do fundo do coração, o nosso Magnificat.

Uma existência « doada »

3. « Accipite et manducate… Accipite et bibite… ». A auto-doação de Cristo, que tem a sua fonte na vida trinitária do Deus-Amor, atinge a sua expressão mais alta no sacrifício da Cruz, cuja antecipação sacramental é a Última Ceia. Não é possível repetir as palavras da consagração sem sentir-se implicado neste movimento espiritual. Em certo sentido, o sacerdote deve aprender a dizer, com verdade e generosidade, também de si próprio: « tomai e comei ». De facto, a sua vida tem sentido, se ele souber fazer-se dom, colocando-se à disposição da comunidade e ao serviço de qualquer pessoa que passe necessidade.

Era isto precisamente que Jesus esperava dos seus apóstolos, como sublinha o evangelista João ao narrar o lava-pés. O mesmo espera do sacerdote o Povo de Deus. Pensando bem, a obediência, a que ele se comprometeu no dia da Ordenação e cuja promessa é convidado a renovar na Missa Crismal, é ilustrada por esta relação com a Eucaristia. Obedecendo por amor, renunciando mesmo a legítimos espaços de liberdade quando se trata de aderir a um autorizado discernimento dos Bispos, o sacerdote realiza na própria carne aquele « tomai e comei » de Cristo, quando, na Última Ceia, Se entregou a Si próprio à Igreja.

Uma existência « salvada » para salvar

4. « Hoc est enim corpus meum quod pro vobis tradetur ». O corpo e o sangue de Cristo são entregues para a salvação do homem, do homem todo e de todos os homens. É uma salvação integral e simultaneamente universal, porque não há homem — salvo livre acto de recusa — que esteja excluído da força salvadora do sangue de Cristo: « qui pro vobis e pro multis effundetur ». Trata-se dum sacrifício oferecido por « muitos », como se lê no texto bíblico (Mc 14, 24; Mt 26, 28; cf. Is 53, 11-12) com uma típica figura literária semita que, aliando dois opostos — no nosso caso, a multidão abrangida pela salvação e um só, Cristo, que a realizou —, indica a totalidade do seres humanos aos quais a salvação é oferecida: é sangue « derramado por vós e por todos », como legitimamente se explicita nalgumas traduções. A carne de Cristo é realmente entregue « pela vida do mundo » (Jo 6, 51; cf. 1 Jo 2, 2).

Ao repetirmos, num silencioso recolhimento da assembleia litúrgica, as venerandas palavras de Cristo, nós, sacerdotes, tornamo-nos arautos privilegiados deste mistério de salvação. Mas como podemos sê-lo eficazmente, sem nos sentirmos nós mesmos salvados? Nós somos os primeiros cujo íntimo é alcançado pela graça, que, libertando-nos das nossas fragilidades, nos faz gritar « Abbá, Pai », com a confiança própria de filhos (cf. Gal 4, 6; Rm 8, 15). E isto obriga-nos a avançar no caminho da perfeição. De facto, a santidade é a manifestação plena da salvação. Só vivendo como salvados é que nos tornamos arautos credíveis da salvação. Por outro lado, cada vez que tomamos consciência da vontade de Cristo de oferecer a todos a salvação, não pode deixar de se reavivar no nosso espírito o ardor missionário, incitando cada um de nós a fazer-se « tudo, para todos, para salvar alguns a todo o custo » (1 Cor 9, 22).

Uma existência « evocativa »

5. « Hoc facite in meam commemorationem ». Estas palavras de Jesus foram conservadas por Lucas (22, 19) e também por Paulo (1 Cor 11, 24). O contexto em que foram pronunciadas — é bom tê-lo presente — é o da ceia pascal, que, para os hebreus, era precisamente um « memorial » (zikkarôn, em hebraico). Naquela circuns- tância, os israelitas reviviam antes de mais nada o Êxodo, mas, com ele, lembravam também os outros acontecimentos importantes da sua história: a vocação de Abraão, o sacrifício de Isaac, a aliança do Sinai, as numerosas intervenções de Deus em defesa do seu povo. Também para os cristãos a Eucaristia é « memorial », e numa medida incomparável: não se limita a recordar, mas actualiza sacramentalmente a morte e ressurreição do Senhor.

Além disso queria sublinhar que Jesus disse: « Fazei isto em memória de Mim ». Por isso, a Eucaristia não recorda simplesmente um facto; recorda-o a Ele! Para o sacerdote, o facto de repetir cada dia, in persona Christi, as palavras do « memorial » é um convite a desenvolver uma « espiritualidade da memória ». Num tempo de rápidas mudanças culturais e sociais que afrouxam o sentimento da tradição e deixam, sobretudo as novas gerações, expostas ao risco de perderem a ligação com as próprias raízes, o sacerdote é chamado a ser, na comunidade que lhe está confiada, o homem com a memória fiel de Cristo e de todo o seu mistério: a sua prefiguração no Antigo Testamento, a sua realização no Novo, o seu aprofundamento progressivo sob a guia do Espírito, segundo esta promessa explícita: Ele « ensinar-vos-á todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito » (Jo 14, 26).

Uma existência « consagrada »

6. « Mysterium fidei! ». Com esta exclamação, o sacerdote exprime, depois de cada vez que consagra o pão e o vinho, o seu assombro sempre renovado pelo prodígio extraordinário que se realizou nas suas mãos. É um prodígio que só os olhos da fé podem enxergar. Os elementos naturais não perdem as suas características externas, dado que as « espécies » continuam a ser as do pão e do vinho; mas a sua « substância », pelo poder da palavra de Cristo e da acção do Espírito Santo, converte-se na substância do corpo e do sangue de Cristo. Assim, sobre o altar, está « verdadeira, real e substancialmente » presente Cristo morto e ressuscitado, com toda a sua humanidade e divindade. Trata-se, portanto, de realidade eminentemente sagrada! Por isso, a Igreja circunda de tanta reverência este Mistério, e vigia atentamente por que sejam observadas as normas litúrgicas que tutelam a santidade de tão grande Sacramento.

Nós, sacerdotes, somos os celebrantes, mas também os guardiões deste sacrossanto Mistério. Da nossa relação com a Eucaristia deriva também a exigência da condição « sagrada » da nossa vida, que deve transparecer em todo o nosso modo de ser, e primariamente no modo de celebrar. Para isso, vamos à escola dos Santos! Este Ano da Eucaristia convida-nos a redescobrir os Santos que deram provas duma devoção particularmente intensa à Eucaristia (cf. Carta Apostólica Mane nobiscum Domine, 31). Disso mesmo, deram exemplar testemunho muitos sacerdotes beatificados e canonizados, suscitando grande fervor nos fiéis que presenciavam as suas Missas. Muitos se distinguiram por uma prolongada adoração eucarística. Permanecer diante de Jesus Eucaristia, valer-se, em certo sentido, das nossas « solidões » para enchê-las desta Presença, significa conferir à nossa consagração todo o calor da intimidade com Cristo, donde recebe alegria e sentido a nossa vida.

Uma existência voltada para Cristo

7. « Mortem tuam annuntiamus, Domine, et tuam resurrectionem confitemur, donec venias ». Sempre que celebramos a Eucaristia, a memória de Cristo no seu mistério pascal torna-se anseio do encontro pleno e definitivo com Ele. Vivemos na expectativa da sua vinda. Na espiritualidade sacerdotal, esta tensão deve ser vivida sob a forma própria da caridade pastoral, que nos obriga a viver no meio do Povo de Deus para orientar o seu caminho e nutrir a sua esperança. Trata-se duma tarefa que requer do sacerdote uma atitude interior semelhante à que o apóstolo Paulo vivia dentro de si mesmo: « Esquecendo-me do que fica para trás e avançando para o que está adiante, prossigo em direcção à meta… » (Fil 3, 13-14). O sacerdote é alguém que, não obstante o passar dos anos, continua a irradiar juventude, de certo modo « contagiando » com ela as pessoas que encontra no seu caminho. O seu segredo está na « paixão » que sente por Cristo. São Paulo dizia: « Para mim, o viver é Cristo » (Fil 1, 21).

Sobretudo no contexto da nova evangelização, as pessoas têm direito de dirigir-se aos sacerdotes com a esperança de « ver » a Cristo neles (cf. Jo 12, 21). Sentem necessidade disso particularmente os jovens, que Cristo continua a chamar a Si para fazer deles seus amigos e propor a alguns a doação total à causa do Reino. Não hão-de certamente faltar as vocações, se subirmos de tom a nossa vida sacerdotal, se formos mais santos, mais alegres, se nos mostrarmos mais apaixonados no exercício do nosso ministério. Um sacerdote « conquistado » por Cristo (cf. Fil 3, 12) pode mais facilmente « conquistar » outros para a opção de fazerem a mesma aventura.

Uma existência « eucarística » na escola de Maria

8. Muito íntima é a relação da Virgem Santíssima com a Eucaristia, como recordei na encíclica Ecclesia de Eucharistia (cf. nn. 53-58). Todas as anáforas eucarísticas, embora na sobriedade própria da linguagem litúrgica, sempre o sublinham. Assim, no Cânone Romano, dizemos: « Em comunhão com toda a Igreja veneramos a memória da gloriosa sempre Virgem Maria, Mãe do nosso Deus e Senhor Jesus Cristo ». Noutras Orações Eucarísticas, como por exemplo na II Anáfora, a veneração transforma-se em súplica: « Dai-nos a graça de participar na vida eterna, com a Virgem Maria, Mãe de Deus ».

Ao insistir nestes anos sobre a contemplação do rosto de Cristo — especialmente nas cartas apostólicas Novo millennio ineunte (cf. nn. 23ss.) e Rosarium Virginis Mariæ (cf. nn. 9ss.) — indiquei Maria como a mestra mais experimentada. Depois, na encíclica sobre a Eucaristia, apresentei-a como « Mulher eucarística » (cf. n. 53). Quem pode, melhor do que Maria, fazer-nos saborear a grandeza do mistério eucarístico? Ninguém pode, como Ela, ensinar-nos com quanto fervor devemos celebrar os santos Mistérios e determo-nos em companhia do seu Filho escondido sob as espécies eucarísticas. Por isso, a Ela vos recordo a todos, entrego-Lhe especialmente os mais idosos, os doentes, quantos se encontram em dificuldade. Nesta Páscoa do Ano da Eucaristia, apraz-me fazer ressoar para cada um de vós a doce e reconfortante declaração de Jesus: « Eis a tua Mãe » (Jo 19, 27).

Com estes sentimentos, de coração vos abençoo a todos, desejando-vos uma profunda alegria pascal.

Da Policlínica Gemelli em Roma, 13 de Março – V domingo da Quaresma – do ano 2005, vigésimo sétimo de Pontificado.

JOÃO PAULO II

MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II
AO CARDEAL FRANCIS ARINZE,
PREFEITO DA CONGREGAÇÃO
PARA O CULTO DIVINO
E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS

Ao Senhor Cardeal FRANCIS ARINZE
Prefeito da Congregação para o Culto Divino
e a Disciplina dos Sacramentos

1. Venerado Irmão, é-me grato transmitir-lhe a minha saudação, que faço extensiva também aos Senhores Cardeais, Arcebispos, Bispos e Sacerdotes, congregados para a Assembleia Plenária desta Congregação. Sei que nela estão a ser abordados temas de grande interesse, que se inserem oportunamente também no compromisso deste especial Ano da Eucaristia.

Manifesto a todos vós a minha afectuosa proximidade. Alguns dos participantes na Sessão Plenária têm oferecido, há anos, a sua colaboração para a vida da Congregação, enquanto outros acabaram de receber esta responsabilidade. É bom constatar que, com as recentes nomeações, a Congregação não só vê que aumentou o número dos seus membros, mas também que resulta ser mais representativa da Igreja, espalhada por todos os Continentes.

Dirijo o meu agradecimento a cada um. De modo particular, exprimo a meu reconhecimento a Vossa Eminência, Senhor Cardeal, pelas suas palavras de carinho, e a certeza de uma oração especial que me transmitiu da parte de todos, assim como pela dedicação generosa com que está a orientar este Dicastério.

2. Na presente Sessão dirigiu-se um olhar atento sobretudo ao trabalho levado a cabo ao longo dos últimos anos por parte da Congregação, em sintonia com o desígnio pastoral que indiquei a todo o Povo de Deus, convidando-o a especializar-se cada vez mais na “arte da oração” (cf. Novo millennio ineunte, 35). Estou particularmente reconhecido à Congregação por ter seguido de forma imediata as indicações contidas na Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia e na Carta Apostólica Mane nobiscum Domine, preparando primeiro a Instrução Redemptionis sacramentum e, sucessivamente, as “Sugestões e propostas” para o Ano da Eucaristia. Também em virtude de tais documentos, formulo votos a fim de que a comunidade cristã cresça no amor pelo Santíssimo Sacramento e seja ajudada a celebrar cada vez mais dignamente o Sacrifício eucarístico, em conformidade com as normas litúrgicas e sobretudo com uma autêntica participação interior.

3. Nesta perspectiva, na ordem do dia da Sessão Plenária reveste um profundo significado o tema da ars celebrandi, que deve ser considerado à luz da visão teológica da liturgia, como põe em evidência a Constituição conciliar Sacrosanctum concilium. A liturgia é uma acção realizada pelo próprio Cristo, como sumo e eterno Sacerdote da Nova Aliança, envolvendo todo o seu Corpo místico (cf. Constituição Sacrosanctum concilium, 7). Cristo está presente sobretudo na Celebração eucarística, reapresentação viva do Mistério pascal, e a sua acção é participada e compartilhada de maneira apropriada à nossa humanidade, necessitada de palavras, de sinais e de ritos. A eficácia de tal acção é fruto da obra do Espírito Santo, mas exige também a resposta por parte do homem. A ars celebrandi exprime precisamente a capacidade dos ministros ordenados e de toda a assembleia, reunida para a celebração, de actuar e de viver o sentido de cada um dos actos litúrgicos. Trata-se de uma arte que se faz uma só coisa com o compromisso da contemplação e da coerência cristã. Através dos ritos e das orações, é necessário deixar-se alcançar e impregnar intimamente pelo Mistério.

4. Oportunamente, foi reservada uma atenção específica à homilia, apresentada pelo Concílio como uma parte integrande da acção litúrgica, ao serviço da palavra de Deus (cf. Sacrosanctum concilium, 52). Ela tem uma fisionomia diferente da catequese ordinária e compromete quem a pronuncia, numa dupla responsabilidade: em relação à Palavra e à Assembleia. A homilia há-de favorecer o encontro, o mais íntimo e profícuo possível, entre Deus que fala e a comunidade que ouve. É importante que ela não falte sobretudo na Eucaristia dominical. No contexto da nova evangelização, a homilia constitui uma oportunidade formativa preciosa e, para muitos, única.

5. Outro tema ao qual a Sessão Plenária dedicou a sua atenção é o da formação litúrgica, que é uma componente fundamental da preparação dos futuros presbíteros e dos diáconos, dos ministros e dos religiosos, mas inclusivamente uma dimensão permanente da catequese para todos os fiéis. É urgente que nas comunidades paroquiais, nas associações e nos movimentos eclesiais sejam garantidos percursos formativos adequados, a fim de que a liturgia seja melhor conhecida na riqueza da sua linguagem e vivida plenamente. Na medida em que isto se fizer, experimentar-se-ão os seus influxos benéficos na vida pessoal e comunitária.

6. Por conseguinte, encorajo a vossa Congregação a perseverar, em colaboração cordial e confiante com as Conferências Episcopais e os Bispos individualmente, no compromisso em favor da promoção da liturgia. A reforma litúrgica do Concílio Vaticano II deu grandes frutos, mas é necessário passar “da renovação ao aprofundamento” (Carta Apostólica Spiritus et sponsa, 6), para que a liturgia possa caracterizar cada vez mais a vida dos indivíduos e das comunidades, tornando-se fonte de santidade, de comunhão e de impulso missionário.

É grande a tarefa que está a ser confiada à Congregação, presidida por Vossa Eminência. A acção do Espírito Santo e a assistência materna de Maria tornem fecundos todos os vossos esforços. Quanto a mim, acompanho-vos com a minha oração enquanto de coração abençoo todos vós e quantos colaboram nas múltiplas actividades da Congregação.

Da Policlínica “Gemelli”, 3 de Março de 2005.

 

CARTA DO PAPA JOÃO PAULO II
A D. RENATO CORTI, PREGADOR
DOS EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS DA CÚRIA ROMANA

Ao Venerado Irmão D. RENATO CORTI
Bispo de Novara

No final dos Exercícios Espirituais, que Vossa Excelência orientou com meditações oportunas, desejo transmitir-lhe, querido e venerado Irmão, a expressão do meu mais cordial reconhecimento.

Estou feliz porque isto se realiza depois da Santa Missa e da Adoração, com as quais desejei que se concluísse esta semana de silêncio e de oração intensa, no ano particularmente dedicado à Eucaristia. Desta maneira, quisemos ressaltar o facto de que este Mistério se encontra no fulcro da nossa vida quotidiana.

Os Exercícios Espirituais constituíram, para mim e para numerosos dos meus Colaboradores da Cúria Romana, uma ocasião providencial de recolhimento prolongado. As suas reflexões ajudaram-nos a colocar-nos em dócil e atenta escuta do Espírito, que hoje fala à Igreja.

Com a profundidade espiritual e a sabedoria pastoral que o distinguem, Vossa Excelência ajudou-nos a meditar sobre “A Igreja ao serviço da nova e eterna Aliança”. Trata-se de um tema que faz ressoar as palavras pronunciadas pelo Senhor Jesus no final da última Ceia, no acto de oferecer o sagrado Cálice aos Apóstolos. Nós, ministros do altar, pronunciamos estas palavras cada vez que celebramos a Santa Missa. Referindo-se ao Sangue que jorrou das feridas de Cristo crucificado, de forma particular do seu lado traspassado, elas evocam o significado do Sacramento eucarístico. A Igreja “de Eucharistia vivit” (vive da Eucaristia), porque foi daquele Sangue que ela nasce e que haure vigor para a dedicação quotidiana às tarefas ligadas ao anúncio do Evangelho.

Por conseguinte, sinto-me feliz porque o meu e o nosso agradecimento lhe sejam transmitidos precisamente por ocasião desta especial Celebração Eucarística. No coração da Igreja, reunimo-nos à volta do Mistério do altar, conscientes de que é aqui que se encontra o centro vivo da comunhão e da missão de todo o povo cristão. Graças também à contribuição que Vossa Excelência nos ofereceu durante estes dias, corroborada pela sensibilidade pastoral amadurecida no ministério no meio de tantos sacerdotes, seminaristas e fiéis leigos, sentimos o renovado e ardente zelo de recomeçar a partir de Cristo-Eucaristia, para assim dar ao mundo o testemunho da nova e eterna Aliança de Deus com a humanidade.

Que o Senhor o recompense, conformando-o cada vez mais com Ele e cumulando-o de abundantes consolações. Que Maria Santíssima vele constantemente sobre Vossa Excelência e sobre o seu serviço eclesial, e que o acompanhe a Bênção Apostólica que, do íntimo do coração, lhe concedo e, ao mesmo tempo, torno extensiva a quantos têm sido confiados aos seus cuidados pastorais.

Vaticano, 19 de Fevereiro de 2005.

JOÃO PAULO II

MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II
POR OCASIÃO DO CONGRESSO DE BISPOS
AMIGOS DO MOVIMENTO DOS FOCOLARES

Ao Venerado Irmão
Senhor Cardeal MILOSLAV VLK

1. É com profunda alegria que me uno espiritualmente a Vossa Eminência e aos Bispos amigos do Movimento dos Focolares, que participam no Congresso programado no “Centro Marapoli” de Castel Gandolfo, sobre a presença do Ressuscitado como princípio vital da Igreja.

Chegue a cada um a minha saudação cordial e de bons votos. Dirijo um pensamento especial à Senhora Chiara Lubich, renovando-lhe a expressão da minha estima e do meu reconhecimento pelo testemunho evangélico que o Movimento presta em tantas partes do mundo.

2. Esta providencial iniciativa, que se insere bem no contexto do Ano da Eucaristia, será certamente para todos fonte de renovada vitalidade apostólica e de audácia missionária ao enfrentar os numerosos desafios sociais e religiosos do nosso tempo.

De facto, durante estes dias de estudo e de oração é vosso desejo comum discernir os caminhos mais adequados para testemunhar na sociedade de hoje a presença de Cristo ressuscitado, centro da Igreja. Venerados e amados Irmãos, contemplai com fervor sempre renovado Jesus no mistério da Eucaristia; seguindo o seu exemplo, estai preparados em qualquer circunstância para vos tornardes instrumentos de misericórdia e de comunhão. O segredo da eficiência pastoral é o Senhor crucificado e ressuscitado, que adoramos no sacramento da Eucaristia. Para ser sinais eloquentes do seu amor e artífices da sua paz em qualquer ambiente, vós sabei-lo bem, é exigido a todos que cultivem em primeiro lugar uma familiaridade íntima e constante com Ele. Da participação intensa na Eucaristia brota a energia espiritual necessária para realizar todos os projectos de bem.

3. Confio Vossa Eminência, Venerado Irmão, e os Prelados que participam no congresso, à protecção e à intercessão da Virgem Maria. Que Ela vos conduza pelo caminho da santidade. Para esta finalidade garanto-vos a recordação na oração, invocando uma abundante efusão de graças e de confortos celestes, e concedo-vos a todos uma especial Bênção, que de bom grado faço extensiva aos fiéis confiados ao ministério episcopal de cada um de vós e a todo o Movimento dos Focolares.

Vaticano, 19 de Fevereiro de 2005.

MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II
AO ARCEBISPO DE LANCIANO-ORTONA (ITÁLIA)
POR OCASIÃO DO PRIMEIRO CENTENÁRIO
DA DEDICAÇÃO DA BASÍLICA-CATEDRAL
A NOSSA SENHORA DA PONTE “IN LANCIANO”

Ao Venerado Irmão D. CARLO GHIDELLI
Arcebispo de Lanciano-Ortona

1. Foi com profunda alegria que aceitei o seu convite para dirigir uma palavra de exortação à amada Comunidade de Lanciano-Ortona. Está ainda viva em mim a recordação daquele encontro de 21 de Abril do corrente ano, quando Vossa Excelência guiou à Praça de São Pedro uma numerosa peregrinação diocesana para confirmar a comunhão desta Igreja particular com o Sucessor de Pedro.

Agora Vossa Excelência anuncia-me um acontecimento de grande importância para a Arquidiocese: a celebração do primeiro centenário da Dedicação da renovada Basílica-Catedral de Nossa Senhora da Ponte “in Lanciano” (1905-2005). Para esta celebração, Vossa Excelência houve por bem proclamar um especial ano eucarístico-mariano, respondendo ao apelo feito por mim na Encíclica Ecclesia de Eucharistia e em feliz coincidência com o Ano da Eucaristia, que me preparo para inaugurar precisamente neste mês de Outubro. Alegro-me com esta iniciativa e faço votos por que ela produza em abundância os esperados frutos espirituais.

2. O meu profundo desejo é que, durante o Ano da Eucaristia, cada Comunidade diocesana renove publicamente o seu acto de fé em Jesus presente no Sacramento do Altar e inspire toda a sua vida e acção pastoral naquela espiritualidade eucarística que emerge de modo tão claro das memórias evangélicas. De facto, Cristo, que se ofereceu a si mesmo pela salvação da humanidade (cf. Mc 10, 45), quis perpetuar esta sua dedicação oblativa e sacrifical no Sacramento da Eucaristia (cf. Lc 22, 19-20). Para nós, cristãos, a Eucaristia é tudo; é o centro da fé e a fonte de toda a vida espiritual.

Isto é válido de maneira peculiar para a cidade de Lanciano, guardiã de dois milagres eucarísticos que, além de serem tão queridos aos seus fiéis, são meta de numerosas peregrinações da Itália e do mundo inteiro. É-me grato recordar que eu mesmo, quando era Cardeal em Cracóvia, visitei a igreja de São Francisco em Lanciano, onde estão conservadas as relíquias do célebre milagre, que remonta ao século VIII.

Por seu intermédio, Venerado Irmão, gostaria de dizer a todos os fiéis da Arquidiocese: sede conscientes dos grandes favores que Deus vos concedeu, e não deixeis de adorar a santa Eucaristia não só na igreja do milagre, mas em todas as igrejas da vossa bonita terra. Também eu me uno a vós, sobretudo para pedir ao Senhor Jesus o dom de numerosas e santas vocações sacerdotais, para o presente e o futuro da vossa Comunidade diocesana. Ao mesmo tempo, rezo para que o Senhor faça surgir no vosso território famílias cristãs santas, porque, como ensina o Concílio Vaticano II, elas são a forja melhor das várias vocações das quais a Igreja vive.

3. Ao celebrar o centenário da Catedral, vós desejais venerar a vossa querida Padroeira, Rainha do povo da vossa terra. Ela chama-se Nossa Senhora da Ponte, pela singular colocação da própria Basílica. Faço votos por que a devoção mariana se conserve viva nos corações dos irmãos. Se desejarmos perseverar sempre no cumprimento da vontade de Deus, o melhor caminho é escutar o insistente e materno convite de Maria: “Fazei o que ele vos disser” (Jo2,5).

Dirijo uma palavra especial aos caríssimos jovens da Diocese: tende confiança no Senhor Jesus, escolhei-o como vosso amigo especial, fazei-vos seus discípulos na escuta e na meditação do seu Santo Evangelho, servi-o no próximo, sobretudo nos irmãos mais pobres e necessitados, e garanto-vos que encontrareis aquilo de que tendes necessidade para viver em plenitude os ideais da vossa idade.

4. Por fim, desejo recordar também outro grande dom que, segundo uma piedosa tradição, foi concedido à vossa Comunidade: os restos mortais do apóstolo Tomé, conservados na Concatedral de Ortona. Como apóstolo de Jesus, São Tomé reconduz à fonte que jorra sempre do Evangelho. A sua vicissitude seja para todos estímulo para procurar a verdade, mesmo quando as trevas se tornam densas à nossa volta; a procurá-la com amor para a partilhar com os irmãos. Por intercessão de São Tomé, peço ao Senhor que sustente sempre a fé desse povo, sobretudo nos momentos da prova.

Sei que a vossa terra, assim como muitas outras partes dos Abruços, passou por períodos históricos bastante difíceis. Penso de modo particular no fenómeno da emigração, que por muitos anos envolveu tantas famílias. Quantos sofrimentos! Mas, com a ajuda de Deus, as gerações do passado souberam resistir com grande paciência e com igual coragem. Agora, compete a vós demonstrar que sois filhos dignos de pais e mães tão generosos e fortes.

5. Venerado Irmão, são estes os pensamentos que brotam do meu coração e que com tanta confiança lhe recomendo, para que os transmita aos presbíteros e a todos os fiéis confiados aos seus cuidados pastorais. Os meus votos mais sentidos são por que todos, unidos ao seu Pastor, sob a protecção da Virgem Maria e de São Tomé apóstolo, e ancorados nos ensinamentos sempre actuais do Concílio Vaticano II, possam haurir das celebrações centenárias aquela luz sobrenatural, a única que pode iluminar o seu caminho e animar o seu compromisso missionário.

Para esta finalidade concedo de coração a Vossa Excelência, venerado Irmão no episcopado, aos sacerdotes, às religiosas e a toda a Comunidade de Lanciano-Ortona, uma especial Bênção Apostólica.

Vaticano, 4 de Outubro de 2004.

JOÃO PAULO II